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Relato Alma Grey

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História – O memorável relato de  Alma Grey

Pioneira
dos imigrantes brasileiros em Orlando
trabalhou no aeroporto junto à Imigração,
auxiliando na chegada de
estrangeiros.
Recepcionou personalidades e lutou em
defesa da “ Nossa Comunidade”.
Aos 95 anos, resgata fatos marcantes de uma
trajetória
incrível
clay1 Por Walther Alvarenga

Ela caminhou com certa dificuldade até alcançar o batente da porta. Aguardou com um leve sorriso os visitantes inesperados. Pessoas que adentravam ao seu mundo solitário, cercado de jardins, lago e objetos de demarcam uma trajetória de vida privilegiada. Uma história de desafios e empenho da precursora no auxilio aos brasileiros que desembarcaram em Orlando, a partir dos anos setenta. Um gesto que denota o seu amor pela Comunidade. O par de olhos azuis mantém-se fixo e atento no momento dos cumprimentos. Nenhum passo além do acesso de entrada à residência, pois ali era o seu limite, a linha demarcatória de quem viveu o ilimitável, que percorreu o mundo, recepcionou autoridades, artistas e intelectuais. Alma Grey traz em si experimentações que engrandece quem às ouvem. É imprescindível que haja tempo e compenetração para compartilhar com o imensurável.
Pouco mais das dez horas da manhã quando a reportagem do “Nossa Gente” chega à casa de Alma Grey, situada em um cenário arborizado, à beira do lago, em Winter Park, uma das áreas mais caras da região de Orlando. Mas a simplicidade e a naturalidade da anfitriã denotam que nada disso é o mais importante. Ela é a pioneira dos imigrantes brasileiros, pois chegou aos EUA, em 1951, acompanhada do esposo, William, um geólogo americano que conheceu no Brasil. Aos 95 anos – completados em 25 de julho passado-, lúcida e atuante, surpreende quando brinca com a própria idade ao afirmar que, “estou começando a ficar velha”. Natural da Guiana Inglesa foi levada ao Brasil ainda bebê e faz questão de evidenciar a sua brasilidade: “sou brasileira, eu me sinto brasileira. A minha família é portuguesa, Teles Menezes, que residiu em São Paulo”, lembra.

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Conta Alma que quando chegou a Orlando, nos anos cinquenta, a Comunidade Brasileira não existia. E os poucos brasileiros que aqui residiam, estavam dispersos. “Era difícil organizar a comunidade brasileira na época. Existia o clube dos alemães, dos franceses, enfim, vários clubes, mas os brasileiros mantinham-se afastados. Eu tenho muito amor pelos brasileiros. Fiquei triste porque nunca consegui reunir a comunidade da forma que eu gostaria.

Alma Grey entre o casal Suzana e Paulo Corrêa, 30 anos de sincera amizade
Eu queria mostrar à música, as danças, a cultura brasileira, mas não consegui”, relata. “Era complicado porque o brasileiro parecia estar competindo entre si e isso dificultava qualquer iniciativa. E quando aconteciam reuniões, todo mundo queria ser presidente”, alfineta. Mas em 1992 foi dado um passo importante para a unificação da Comunidade com a criação da “Associação Brasileira da Central Flórida”, juntamente com o jornalista e radialista Paulo Corrêa, entre outros colaboradores, ocasião em que Alma teve expressivo empenho na elaboração e registro do estatuto.“Eu não me esqueço de um episódio ocorrido durante a reunião da Associação, quando uma senhora brasileira se levantou e questionou a minha presença ali dizendo que eu não era brasileira (Alma sorri demonstrando complacência). Ela queria que eu saísse, sem tomar conhecimento de que eu era uma das organizadoras da associação”, fala. “Nunca me senti magoada, achei muita graça (sorri)”.
Interprete no aeroporto – Com o contingente de estrangeiros que desembarcavam no aeroporto de Orlando,a partir de outubro de 1971, quando na inauguração do “Magic Kingdom Park”, da Disney, Alma Grey foi convidada para trabalhar junto ao Departamento de Imigração, auxiliando os oficiais de imigração na chegada de brasileiros e de turistas de outros países.  O pequeno aeroporto da cidade havia passado por reestruturação para atender a demanda de visitantes.  “Eu organizei um centro de informações no aeroporto de Orlando para auxiliar as pessoas que falavam outras línguas. Era o Banco de Línguas, que disponibilizava intérpretes, de diversos idiomas, e que atendiam pelo telefone. Quando chegava um estrangeiro no guichê da imigração eu o recepcionava e o encaminhava para o Banco de Línguas e lá ele fazia contato com o intérprete de seu respectivo idioma. Eu tinha uma lista de voluntários. O turista lia a lista e apontava para o seu respectivo idioma, então eu contatava o atendente para traduzir. Isso facilitou muito o trabalho da imigração porque o aeroporto era muito busy. Eu, inclusive, recepcionava as autoridades brasileiras que chegavam ao país”, ressalta.
Mas um fato marcou Alma, em meio ao tumultuado embarque e desembarque de estrangeiros. Ela não soube precisar o país, entretanto, relatou que uma senhora, prestes a dar à luz, recorreu ao Banco de Línguas. “A turista necessitava de informações do hospital. Queria contato com algum médico ou alguém que pudesse ajuda-la no hospital porque o bebê estava prestes a nascer. Foi lindo, apesar da correria, mas tudo acabou bem (faz pequena pausa).
Gostei muito de trabalhar no aeroporto de Orlando, que na ocasião ainda era pequeno. Depois o aeroporto foi ampliado e o trabalho do Banco de Línguas tornou-se importantíssimo porque todos se recorriam a ele, inclusive, os médicos em trânsito. Elaborei um informativo, em vários idiomas, disponibilizado aos turistas que desembarcavam em Orlando com todas as informações sobre os procedimentos no aeroporto e o contato com os tradutores voluntários.
Eu pude ajudar muitas pessoas e tenho certeza de que Deus me abençoou por isso”, fala com saudosismo no olhar, esboçando um leve sorrido.
Alma também era requisitada para receber em Orlando os grandes empresários brasileiros e portugueses, além de políticos, intelectuais de expressão e artistas. Ela os acompanhava durante a estadia na cidade, atuando como tradutora, inclusive, recebendo-os em sua residência com coquetel. Um exímio trabalho de relações públicas que a elegeu competente anfitriã de personalidades dos países de língua portuguesa. “Tive contato com muita gente maravilhosa. Pessoas incríveis passaram por aqui”, comenta. O seu trabalho também foi reconhecido e premiado pelo “Brazilian Day – Orlando” e “Brazilian Press Awards”.
Por frações de segundos, Alma interrompe a entrevista para mostrar souvenires que trouxe dos países que visitou, inclusive, da Tailândia onde morou por dois anos. Ela aponta para espadas, estatuetas e resquícios de lembranças que pontuam a sua trajetória pelo mundo. Quadros incríveis e acessórios de prataria integram o cenário particular. Grey está envolta de nostalgia, rememoradas em diversificados ângulos da casa. Tem uma coleção privilegiada de livros, dentro os quais há relatos dos Teles Menezes, a sua família. Sentada na poltrona, a entrevistada lembra-se do marido ao mostrar blocos de minerais coletados pelo saudoso companheiro, durante trabalho de exploração e pesquisa. O olhar é meigo e os traços de sua beleza continuam intactos, evidenciando as características de uma mulher elegante, dócil e feminil.
Quanto à possibilidade de voltar ao Brasil e relembrar pontos marcantes de sua história no país, Alma Grey sorriu denotando emoção latente. Entrelaçou as mãos e respirou com profundidade antes de responder. Era como se rebuscasse a infância, a adolescência, tudo o que fosse possível na tentativa, talvez, de se redimir ao passado. “Sinto muita falta e saudade do Brasil. Eu gostaria muito de poder voltar, seria maravilhoso. Todas às vezes que penso em voltar ao Brasil acabo desistindo porque para mim, agora, é muito difícil. Nas minhas condições fica inviável fazer essa viagem. A família sempre me convida para ir lá, mas não posso. Não estou em condições de viajar”, justifica.  E sobre os filhos, quando indagada, Alma se referiu ao William que a visita com frequência. “Ele tem o mesmo nome do pai, mas nós o apelidamos de Budy. Ele mora próximo daqui e passa com frequência para me ver”. Já a filha Carol, faleceu há cinco anos.
A reportagem acompanha Alma Grey até os fundos da casa. Lá há um amplo jardim, cercado de árvores e gramado, que parece interminável. Uma velha ponte de madeira, envolta por musgos, dá acesso ao lago, de onde se pode avistar o cenário deslumbrante. Foi ali que aconteceram recepções para convidados ilustres, reuniões de família e, certamente, os momentos memoráveis quando na chegada do casal Grey a Orlando. E desde que adentrou ao país, Alma reside na mesma casa. Portanto, cada centímetro do lugar está inserido na sua história de vida. Ela permanece em silencio, apenas observa. No término da entrevista, a despedida calorosa de uma mulher sempre muito gentil. Vai até a porta de entrada e acena para a equipe que se afasta. Alma, a pioneira dos emigrantes brasileiros permanece estática.

“Eterno, é tudo aquilo que dura uma
fração de segundo, mas com tamanha
intensidade, que se petrifica, e
nenhuma força jamais o resgata”

 

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